Palavras que beijam o chão...


As três Menininhas, o Sabiá, A Menina e a Fábrica de Lágrimas

 

(para Raiça,meu colibri)

 

 

De manhãzinha, quando a padaria ainda está vazia, e a banca de jornal começa a gritar as notícias do dia, na casa do final da ruazinha de jabuticaba as três menininhas já estão a fabricar lágrimas.

Um tal Sabiá, que passeia por ali e não tem muito que fazer, percebe que todos os dias aquelas três menininhas estão ali, a trabalhar, nunca param. Decide então, pregar uma peça.

 

Certo dia, uma das menininhas deixa a última fornada de lagriminhas na janela, a descansar com o vento (essa é uma das partes da produção de lágrimas, elas descansam no vento para crescerem fortes).

O sabiá, esperto que é, corre até o céu, e convence a Dona Nuvem Gorda a desabar na janela das menininhas, causando um estrago jamais visto. Foi água pra tudo que é lado, as lagriminhas, as lagrimonas, as lágrimas na puberdade, todas elas se misturaram à chuva, e não tinha santo ou santa que as separassem. E então, as menininhas tiveram que parar a produção para limpar o aguaceiro e começar tudo do iniciozinho. O sabiá ria pra se acabar, o mundo agora não ia ter como chorar! Danado que é, no meio da confusão consegue se esconder dentro dos longos cabelos de uma das menininhas para ver de perto o desespero das certinhas.

As três menininhas, agoniadas coitadas, agora precisavam de uma dor muito forte para reiniciar a produção de lágrimas. Quando elas assumiram a fábrica, ela já estava a todo vapor, e nunca havia parado de funcionar. E agora quanto mais demorassem, mais tempo o mundo ficaria sem lágrimas.

 

As menininhas então, saíram em sua busca. As confusões já começavam.

 

Em menos de um dia:

- Os hospitais estavam lotados de pessoas com o chamado "Nó na garganta".

- Os bebês não sabiam mais como avisar a mamãe ou ao papai quando estavam com fome, ou com sono, ou de caquinha!

- As brigas dos casais estavam cada vez menos emocionantes.

- O cinema então! Coitados... o Oscar agora seria dado à quem fizesse um cinéfilo ou cinéfila chorar!

 

Até que o pior acontece.

 Escrito por Maíra às 17h33 [   ] [ envie esta mensagem ]




(continuação)

 

As menininhas recebem a notícia mais temerosa!Urgente!Telegrama vindo diretamente da fábrica de gargalhada!"As pessoas não choram mais de tanto rir!" É o ápice! Atenção! Atenção! Calamidade pública! Acionem a ONU! Todas as ONGs, todos os reis, rainhas, mundo mágico, mundo real,Terra do Nunca, Contos de fadas! Todos Aqui! Chamem passarinhos, duendes, gigantes, meninas, bruxas, meninos, pedreiros, padeiros, pipoqueiros, fadas, homens, mulheres, e principalmente: todas e todos os contadores de histórias!!!

 

Os mundos entraram em parafuso! Em pouco tempo, filas e mais filas de doadores de dor. Todos apresentavam suas dores para as três menininhas, e nenhuma era suficiente...

 

O sabiá finalmente percebe a confusão que causou e decide ir em busca da dor mais forte.

 

Ele sobrevoa dias e dias com a consciência pesada.Como pôde brincar com coisa tão séria?! Até que enxerga uma menina sozinha, a única que parecia não estar preocupada com a falta de lágrimas de todos os mundos, e ela parece tão triste, mas tão triste, que o mar que ele estava a olhar lá do céu parecia ser o que de lágrimas ela teria derramado. E sentada entre as pedras e corais a Menina cantava um canto triste, canto de dor de alma.

 

O sabiá então, pousou nos pés da menina, e perguntou:

- Menina, como faz pra ter dor tão forte?

Ela respondeu com um riso tímido de canto de boca:

- É amor meu passarinho, é amor, e só.

 

E nesse instante, a aguinha agridoce escorreu no rosto da menina e pingou no mar.

 

Não se sabe como, mas instantaneamente, quando a lagriminha, única no mundo pingou no mar, as três menininhas sentiram um aperto bem forte no peito, mas tão forte que saíram correndo deixando todas as autoridades de todos os mundos que estavam reunidas na terra do nunca a falar sozinhas. Voltaram para a rua das jabuticabas. Quando abriram a porta de casa, lá estava o Sabiá, muito ressabiado, a cantar o canto triste da Menina...

 

Desde então, as menininhas não param de fazer lágrimas. E o sabiá está lá, a trabalhar com elas, cantando o canto triste.

E a Menina que fez a fábrica de aguinha agridoce voltar a funcionar, essa teve tanta dor no peito, mas tanta, que se fez lágrima e se misturou ao mar.

 

"Minha sabiá, vem me dizer, por favor, o quanto que eu devo amar, pra nunca

morrer de amor..."*

 

(Maíra Guedes - 01 de fevereiro de 2007,14h, Salvador - Ba)

 

(* Música de Caetano Veloso)



 Escrito por Maíra às 17h32 [   ] [ envie esta mensagem ]


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